Sábado, 10 de Abril de 2010

António Guerra - 15 de Março de 1961

Chamo-me António Manuel Pereira Guerra, filho de Abílio Augusto Guerra e de Maria Helena Borges Pereira Guerra, nasci no Quitexe a 20 de Junho de 1950, em casa de Celestino Guerra, e estas são algumas das minhas memórias, na altura do ataque com 10 anos.

 

Neste pequeno relato, irei contar a minha vivência sobre o 15 de Março de 1961, sem juízo de valores ou ideologias políticas. Sobre isso já se escreveu demais e, com o passar do tempo, infelizmente foram-se perdendo muitas das pessoas que viveram na pele essa data, e poderiam testemunhar a sua vivência trágica.

 

 

Este pequeno contributo, não tem de forma nenhuma a pretensão de ser mais um relato dos acontecimentos de 15 de Março de 1961, mas deverá apenas ser entendido como uma pequena participação, para que este blog sobre a nossa terra não caia no esquecimento e possa assim crescer com o contributo de todos os que um dia passaram pelo Quitexe.

 

 

No final de 1960, tinha eu 10 anos, já qualquer coisa de anormal se fazia sentir, pois as festas familiares (Natal e passagem de ano) não foram como nos anos anteriores. As reuniões de família decorriam sempre com as armas em presença.

 

  Por relato dos meus pais, o chefe de posto do Quitexe, na altura (Nascimento Rodrigues), procurou no dia 14 de Março de 1961 o meu pai e o sr. Jaime Rei, pedindo-lhes que o acompanhassem no dia seguinte para os lados do Zalala, pois tinham fazenda para aqueles lados e iriam efectuar contactos com os trabalhadores das diversas fazendas dessa região pedindo-lhes que, caso aparecessem elementos estranhos ou suspeitos, os prendessem e mandassem recado ao posto do Quitexe. A minha mãe bem pediu ao meu pai que não fosse, mas de nada lhe valeu (pressentimentos de mulheres).

 

No dia 15 de Março, o meu pai tinha saído cedo com o administrador, o Sr. Jaime Rei e dois cipaios do posto. No Quitexe estavam a passar férias a minha irmã (que estudava em Luanda no Colégio das Freiras), e em casa do meu tio Augusto, onde também viviam os meus avós (António Inocêncio Pereira e Joaquina Pereira), estavam as minhas primas Milu e Juju, filhas do meu tio Celestino e tia Maria (que na altura estavam em Luanda).

Eu levantei-me cedo, como era hábito, e fui a casa do tio Augusto encontrar-me com a Milu e Juju, para as desafiar para irmos brincar. Como elas ainda estavam a matabichar, esperei por lá um pouco.

A minha mãe encontrava-se em frente da nossa casa, a curta distância da casa do tio Augusto, a podar umas roseiras de um canteiro de flores. A minha irmã ainda dormia.

 

Contou depois a minha mãe, que quando soaram as badaladas das oito horas, no sino da administração, que era o sinal para os comerciantes abrirem as portas das lojas, se gerou um certo burburinho na rua de cima. Era, afinal, também o sinal para começar o ataque ao Quitexe. Uns dias antes tinham fugido uns presos da prisão do posto e na perseguição que se seguiu, houve bastante algazarra, pelo que a minha mãe não deu importância ao barulho que ouviu, pensando tratar-se outra vez de uma fuga da prisão. Foi nesse instante que um elemento que estava na esquina da nossa casa, empunhou uma catana dirigindo-se a ela de arma no ar com a intenção de a matar. Ela começou a fugir em direcção a casa do seu irmão Augusto, aos gritos de socorro.

 

Foi nesse instante que nós ouvimos os gritos da minha mãe e nos apercebemos da gravidade da situação. De imediato o tio Augusto agarrou a espingarda .22 long, ordenou-nos que nos escondêssemos e que só poderíamos sair quando ele nos fosse buscar. Desatou a correr em direcção à irmã que, entretanto, já tinha tombado junto ao cruzamento para a rua da Igreja (esta cena marcante, foi vista por nós, da porta de casa do tio Augusto). Os meus avós que também tinham saído em socorro da minha mãe, tombaram também. A minha avó tombou na varanda da casa dos meus pais e já a vi morta quando acabou o ataque. O meu avô foi ferido com uma catanada na nuca, foi connosco para o Uíge, e veio a falecer 5 dias depois no hospital de Luanda.

 

Algum tempo depois chegou o tio Augusto que nos veio buscar, já com outra arma uma caçadeira, que ele tinha ido buscar à arrecadação do posto, onde estavam algumas armas apreendidas, pois a .22 long tinha encravado ao primeiro disparo (salvou-se graças a uma pequena pistola 6,35 que andava sempre com ele no bolso das calças).

Em frente da minha casa, estavam o Sr. José Coelho Guerreiro e a esposa (D. Felismina), com a filha bebé a Maria Helena, a minha mãe com 11 catanadas (8 nas costas, 2 nos braços e uma no rosto, tendo o nariz ficado preso pelo lábio superior), a minha irmã e o meu avô que foi colocado num colchão na carroçaria da carrinha do Sr. José Guerreiro, e com o tio Augusto de pé na carroçaria a fazer protecção, seguimos para o Uíge. O filho mais velho do sr. José Guerreiro (José Cebola Guerreiro de sete anos), tinha ficado degolado à entrada da loja dos pais na rua de cima. Na cabine da carrinha de apenas 3 lugares, seguia o Sr. José a conduzir (ferido), a esposa (ferida) e filha, a minha mãe, a minha irmã, as minhas duas primas e eu.

Fotografia da minha Mãe Helena Guerra, sendo visível a cicratiz que lhe atravessava o rosto. A catanada fragilizou-lhe, também o osso do maxilar

 

A minha mãe segurava o nariz, que apenas estava preso pelo lábio superior, com um roupão turco que ficou ensopado em sangue, bem assim como todos nós, pois iam na cabine três pessoas feridas.

A viagem até ao Uíge decorreu sem incidentes e ao chegarmos ao Hospital, já lá estava o Dr. Almeida Santos (Dr. Talambanza como era conhecido) à espera, tendo sido a primeira pessoa a socorrer a minha mãe, aplicando-lhe logo uma injecção à entrada do Hospital.

 

Quando o meu pai chegou ao Quitexe, já se tinha dado o ataque e já nós tínhamos seguido para o Uíge. Como houve mobilização geral, nenhum homem mais foi autorizado a abandonar o Quitexe. Ficou 15 dias sem saber de nós, e nós sem sabermos dele.

 

Entretanto, no Uíge, o tio Augusto levou-nos para uma sala no hospital e deixou-me de guarda às espingardas encostadas a um canto da sala, enquanto ele procurava saber dos feridos. Ao hospital chegavam cada vez mais pessoas, quer feridos, quer pessoas que iam saber de amigos e de notícias.

Uma senhora que morava próximo do hospital, levou a minha irmã e as minhas primas para casa dela, onde puderam trocar de roupa que entretanto lhes arranjaram, pois nós saímos do Quitexe só com a roupa que trazíamos vestida. Próximo do meio dia, o tio Augusto levou-me a casa dessa senhora, onde troquei de roupa (as nossas estavam todas cheias de sangue) e almoçámos.

 

Logo a seguir ao almoço, o tio Augusto foi-nos buscar e levou-nos para o aeroporto do Uíge, onde aguardámos a chegada de um avião (Dakota) da DTA, vindo de Luanda para levar os feridos e ao qual foram retirados alguns bancos para receber as macas. Aguardámos a chegada do avião, sózinhos e sem qualquer protecção militar. Quando o avião aterrou, foram embarcados os feridos do Quitexe e lembro-me de ter visto a D. Felismina, Sr. José Guerreiro e filha, a minha mãe, o meu avô, a Geninha e a prima Beatriz, o Tio Augusto, a minha irmã, e as minhas primas. Mais pessoas embarcaram, pois o avião ia cheio, mas não me recordo de quem eram.

 

Ao chegarmos a Luanda, não fomos desembarcados para o terminal do aeroporto como seria normal, mas fomos metidos todos em ambulâncias que nos levaram para o hospital Maria Pia, onde ficaram internados os feridos. O tio Augusto, as minhas primas, a minha irmã e eu, podemos juntar-nos ao tio Celestino, que estava em Luanda e tinha seguido as ambulâncias desde o aeroporto e aguardava por nós.

O tio Celestino levou-nos para o hotel Europa, onde ele se encontrava hospedado e fomos mandados subir imediatamente para os quartos, não tendo sido permitido a ninguém falar fosse com quem fosse.

À porta do hotel encontravam-se bastantes pessoas, mas só o meu tio Celestino ficou para trás, e creio ter sido nessa altura que ele falou com o autor do livro Sangue no Capim (Horácio Caio), que faz uma alusão muito rápida sobre as pessoas com que o meu tio estaria preocupado (Tio Jaime e família, família Rocha, etc.). Ao tio Augusto que infelizmente viveu na primeira pessoa o ataque ao Quitexe e que para mim foi o nosso salvador, não foi permitido que falasse com ninguém (não entendemos porquê). Mais tarde, e à medida que se ia falando mais sobre estes acontecimentos, começámos a perceber uma certa manipulação por parte do poder que tentara encobrir os ataques.

 

Entretanto, uma senhora amiga, esposa de um caixeiro viajante, que aparecia pelo Quitexe e por vezes ficava em nossa casa, viu o nome da minha mãe, num jornal diário na lista dos feridos, foi visitá-la ao hospital e mandou um telegrama para o meu pai, dando-lhe conta que a família se encontrava viva em Luanda.

Na primeira oportunidade que o meu pai teve de pedir uma licença ao exército para ir a Luanda ver a família, fê-lo e nunca mais regressou ao Quitexe.

 

As nossas casas foram entretanto alugadas ao exército, tendo permanecido assim até ao 25 de Abril.

 

António Manuel Guerra

 

 

 
comentário:
 
De A. Jorge Santos a 26 de Março de 2009 às 20:10
 
Gostaria aqui de cumprimentar o amigo António Guerra, por nos trazer este testemunho por ele vivido, na 1ª pessoa, e que a mim particularmente, me emocionou. É-me dificil imaginar, o que se passará na cabeça de uma criança de 10 anos, perante os acontecimentos que aqui nos relata.
Um abraço tambem ao amigo João Garcia, por juntar neste blogue, todos estes valiosos testemunhos, de conterrâneos nossos.
A. Jorge Santos
 
 
De André Avelino dos Santos a 12 de Abril de 2012 às 18:07
 
Em 1957/58 vivi no Quitexe. Meu pai era empregado na loja que pertencia à madame Van der Schaf, mesmo em frente à casa dos Guerras, ali no cruzamento da rua que ia dar à igreja e saída para Camabatela.. Madame van der schaf era tb dona tb da Fazenda S. Pedro onde era encarregado um tal Sr. Ramalho, se não me falha a memória. Era chefe do Posto o Sr. Barreiros e a esposa dele foi minha professora. Lembro-me muito bem do "Tonito" e da Odete cuja casa ficava um pouco mais além, logo a seguir ao talho do Sr ??????. É emocionante, depois de tantos anos, ler esta narrativa feita por uma pessoa que viveu aqueles momentos terriveis, para mais sendo conhecida dos tempos de menino. Tonito era mais novo que eu (sou de 1945) mas o Odete devia ser da minha idade ou pouco menos.
  
 
 
De Silva Virgílio a 8 de Maio de 2014 às 12:46
 
António Guerra,
Tem com certeza traumas pelo que viveu em Quitexe, votos de muita coragem para suportar a situação marcante que viveu. Na minha opinião foi uma vítima dupla do regime fascista de Portugal e dos protagonistas dos ataques de 15 de Março de 1961. Depois da segunda guerra mundial, já não se deveria opor a necessidade da autodeterminação dos africanos, não me refiro só aos negros, também aos mestiços e brancos. Tive a oportunidade de ler o Manisfesto da UPA,/FNLA, MPLA e UNITA, nenhum deles perspectivou uma independência só para negros. De resto partilho consigo um texto de um autor identificado abaixo e o meu comentários sobre os acontecimentos no geral:

Para sua informação os acontecimentos do 15 de Março foram muito mais abrangentes do que imagina: províncias do Zaire, Uíge, Malanje, Kuanza Norte, Luanda nas regiões da Província do Bengo actualmente, até mesmo na Província do Kwanza Sul. A sabedoria popular da minha região através de familiares e vizinhos deu-me a conhecer muita coisa sobre as atrocidades do colonialismo em Angola e que foram confirmadas com muita literatura portuguesa, agora que as fontes são mais diversificadas e que podem moderar a sua leitura sobre os acontecimentos da reação dos nativos às atrocidades coloniais ao longo de séculos.

Abaixo faço o meu comentário e insiro extratos de algumas fontes portuguesas
Relatório militar revela que tropas portuguesas participaram em decapitações
LUCINDA CANELAS e ISABEL SALEMA
16/12/2012 - 09:48
O relatório de um capitão prova que o Exército português participou em Angola numa "acção punitiva" em que "terroristas" foram decapitados. Havia testemunhos pessoais destas práticas, mas este é o primeiro documento escrito.


A violência do documento é óbvia e incómoda, por vezes desconcertante. Tão desconcertante na sua brutalidade, que, se tivesse sido produzido pelos inimigos dos militares portugueses que participaram na guerra colonial em Angola, dificilmente seria mais verosímil.
A "cerimónia" de fuzilamento com mutilação de cadáveres começou às 10h30 de 27 de Abril de 1961, poucas semanas após o início da guerra em Angola, na sanzala Mihinjo, a cerca de 20 quilómetros de Luanda. É descrita por 11 pontos, sendo o primeiro uma explicação muito incompleta dada ao povo pelo soba, o chefe tribal, para a presença de um pelotão de execução português.
Segue-se o disparo do que devem ser seis pistolas-metralhadoras. E os suspeitos de terrorismo caíram. Depois, vem a violência extrema.
"5 - Avançaram os cortadores de cabeças. Cumpriram a sua missão.
6 - Avançou o soba. Colocou as cabeças nos paus. Ficaram dois sem cabeça. As cabeças ficaram espetadas pela boca, submissamente viradas para o chão.
7 - Clarim tocou ombro arma, apresentar arma. Depois: Marcha de continência, e terminou a cerimónia.
8 - Soba falou ao povo, explicando a razão por que tinham ficado dois paus sem cabeça, à espera dos futuros não respeitadores da lei.
9 - Ao soba eu disse: Os corpos podem ser enterrados as cabeças ficam sete dias, os paus ficam para sempre."
Seria extremamente abusivo com base num único documento, por mais forte que seja, fazer um juízo global sobre a presença militar portuguesa em África e sobre o comportamento das tropas.
"Meu comentário sobre os excessos na guerra colonial pela independência:
Quanto aos excessos da população em cólera sobre o 15 de Março, acho que todo um sistema de escravatura e humiliação dos nativos praticado pelos colonialistas, em pleno Séc XX esteve na base de tudo, sem querer desculpabilizar os excessos. Que revolução não teve excessos neste mundo? Qual foi a resposta dos colonialistas sobre os camponeses da Baixa de Cassange em 4 de Janeiro de 1961 que se manifestaram de forma pacífica?
Massacres aos milhares, política de terra queimada, aviação com bombas de Napalma.
Depois dos acontecimentos do 15 de Março, um cidadão português ligado ao poder colonial vendo os excessos escreveu textualmente:"Estamos a correr o risco de ver em cada nativo um terrorista"...
publicado por Quimbanze às 09:30

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3 comentários:
De André Avelino dos Santos a 12 de Abril de 2012 às 18:07
Em 1957/58 vivi no Quitexe. Meu pai era empregado na loja que pertencia à madame Van der Schaf, mesmo em frente à casa dos Guerras, ali no cruzamento da rua que ia dar à igreja e saída para Camabatela.. Madame van der schaf era tb dona tb da Fazenda S. Pedro onde era encarregado um tal Sr. Ramalho, se não me falha a memória. Era chefe do Posto o Sr. Barreiros e a esposa dele foi minha professora. Lembro-me muito bem do "Tonito" e da Odete cuja casa ficava um pouco mais além, logo a seguir ao talho do Sr ??????. É emocionante, depois de tantos anos, ler esta narrativa feita por uma pessoa que viveu aqueles momentos terriveis, para mais sendo conhecida dos tempos de menino. Tonito era mais novo que eu (sou de 1945) mas o Odete devia ser da minha idade ou pouco menos.
De Silva Virgílio a 8 de Maio de 2014 às 12:46
António Guerra,
Tem com certeza traumas pelo que viveu em Quitexe, votos de muita coragem para suportar a situação marcante que viveu. Na minha opinião foi uma vítima dupla do regime fascista de Portugal e dos protagonistas dos ataques de 15 de Março de 1961. Depois da segunda guerra mundial, já não se deveria opor a necessidade da autodeterminação dos africanos, não me refiro só aos negros, também aos mestiços e brancos. Tive a oportunidade de ler o Manisfesto da UPA,/FNLA, MPLA e UNITA, nenhum deles perspectivou uma independência só para negros. De resto partilho consigo um texto de um autor identificado abaixo e o meu comentários sobre os acontecimentos no geral:

Para sua informação os acontecimentos do 15 de Março foram muito mais abrangentes do que imagina: províncias do Zaire, Uíge, Malanje, Kuanza Norte, Luanda nas regiões da Província do Bengo actualmente, até mesmo na Província do Kwanza Sul. A sabedoria popular da minha região através de familiares e vizinhos deu-me a conhecer muita coisa sobre as atrocidades do colonialismo em Angola e que foram confirmadas com muita literatura portuguesa, agora que as fontes são mais diversificadas e que podem moderar a sua leitura sobre os acontecimentos da reação dos nativos às atrocidades coloniais ao longo de séculos:

Para sua informação os acontecimentos do 15 de Março foram muito mais abrangentes do que imagina: províncias do Zaire, Uíge, Malanje, Kuanza Norte, Luanda nas regiões da Província do Bengo actualmente, até mesmo na Província do Kwanza Sul.
Abaixo faço o meu comentário e insiro extratos de algumas fontes portuguesas
Relatório militar revela que tropas portuguesas participaram em decapitações
LUCINDA CANELAS e ISABEL SALEMA
16/12/2012 - 09:48
O relatório de um capitão prova que o Exército português participou em Angola numa "acção punitiva" em que "terroristas" foram decapitados. Havia testemunhos pessoais destas práticas, mas este é o primeiro documento escrito.


A violência do documento é óbvia e incómoda, por vezes desconcertante. Tão desconcertante na sua brutalidade, que, se tivesse sido produzido pelos inimigos dos militares portugueses que participaram na guerra colonial em Angola, dificilmente seria mais verosímil.
A "cerimónia" de fuzilamento com mutilação de cadáveres começou às 10h30 de 27 de Abril de 1961, poucas semanas após o início da guerra em Angola, na sanzala Mihinjo, a cerca de 20 quilómetros de Luanda. É descrita por 11 pontos, sendo o primeiro uma explicação muito incompleta dada ao povo pelo soba, o chefe tribal, para a presença de um pelotão de execução português.
Segue-se o disparo do que devem ser seis pistolas-metralhadoras. E os suspeitos de terrorismo caíram. Depois, vem a violência extrema.
"5 - Avançaram os cortadores de cabeças. Cumpriram a sua missão.
6 - Avançou o soba. Colocou as cabeças nos paus. Ficaram dois sem cabeça. As cabeças ficaram espetadas pela boca, submissamente viradas para o chão.
7 - Clarim tocou ombro arma, apresentar arma. Depois: Marcha de continência, e terminou a cerimónia.
8 - Soba falou ao povo, explicando a razão por que tinham ficado dois paus sem cabeça, à espera dos futuros não respeitadores da lei.
9 - Ao soba eu disse: Os corpos podem ser enterrados as cabeças ficam sete dias, os paus ficam para sempre."
Seria extremamente abusivo com base num único documento, por mais forte que seja, fazer um juízo global sobre a presença militar portuguesa em África e sobre o comportamento das tropas.
"Meu comentário sobre os excessos na guerra colonial pela independência:
Quanto aos excessos da população em cólera sobre o 15 de Março, acho que todo um sistema de escravatura e humiliação dos nativos praticado pelos colonialistas, em pleno Séc XX esteve na base de tudo, sem querer desculpabilizar os excessos. Que revolução não teve excessos neste mundo? Qual foi a resposta dos colonialistas sobre os camponeses da Baixa de Cassange em 4 de Janeiro de 1961 que se manifestaram de forma pacífica?
Massacres aos milhares, política de terra queimada, aviação com bombas de Napalma.
Depois dos acontecimentos do 15 de Março, um cidadão português ligado ao poder colonial vendo os excessos escreveu textualmente:"Estamos a correr o risco de ver em cada nativo um terrorista"...
De Silva Virgílio a 8 de Maio de 2014 às 12:51
Continuação:
já haviam sido assassinados pelo regime colonial mais de 25.000 angolanos em menos de um ano. Mais de 200.000 angolanos estavam refugiados na actual República Democrática do Congo. A política de terra queimada já havia balcanizado o Norte de Angola, aldeias inteiras queimadas com a aviação com bombas de Napalma, quantos angolanos foram queimados vimos? enterrados vivos, mortos com práticas de tortura como arranque das unhas?...
Numa altura em que já eram cedidas independências um pouco por toda África Angola vivia as mais ideondas práticas de humiliação".
A tortura, mutilação inclusive o corte de cabeças foi uma prática colonialista para intimidar os chamados indígenas muito antes dos acontecimentos de início da luta armada pelos 3 (três) movimentos nacionalistas (MPLA, FNLA e UNITA em Angola. Basta consultar com profundidade os depoimentos dos próprios portugueses sobre as atrocidades cometidas pelo regime fascista de Portugal, nas ex-colónias. Felizmente estou a vontade da para disso pela consulta que fiz de fontes portuguesas que vieram a confirmar aquilo que a sabedoria popular nos transmitiu sobre um dos piores sistemas coloniais que o mundo conheceu...

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