Sábado, 10 de Abril de 2010

A professora faz "milagres"

 

Certo dia, o meu pai foi a Luanda com o Sr. Baptista da fazenda Pumbaloge, a D. Rosa Maria esposa do sr. Baptista, a Manuela e o João. A Manuela e o João eram filhos do Sr. Baptista e da D. Rosa, e frequentavam também a escola do Quitexe - Durante a semana ficavam em casa dos meus pais e ao fim de semana iam para o Pumbaloge.
Quanto à Manuela, tive o grato prazer de a reencontrar ao fim de 49 anos de separação, tenho falado com ela bastantes vezes e é sempre com muita alegria que recordamos alguns momentos da nossa infância (e ela tem imensas recordações) no Quitexe e no Pumbaloge.
Acontece que em Luanda iam decorrer as corridas de automóveis e, como não podia deixar de ser, eles iam assistir, mesmo que para isso a Manuela e o João tivessem que falar um dia ou dois à escola. Escusado será dizer que eu também queria ir, pois além de ir passear a Luanda e ver as corridas, ainda faltava à escola. Eu argumentei, berrei e fiz trinta por uma linha, mas não fui. O meu pai para me calar lá me foi dizendo que eu ficava, mas quando estivesse doente não ia à escola.
É claro que no dia seguinte eu estava muito, mas muito doente mesmo. A minha mãe como me conhecia bem as manhas, não acreditou e queria que eu fosse à escola. “Não vou, mesmo que para isso tenha que fugir”. Se bem o pensei, melhor o fiz e vá de correr por ali fora, sem destino. Foram mobilizados os criados lá de casa para me apanharem e me levarem ao pé da minha mãe. Com a agilidade de umas corridas, umas fintas e algumas pedradas bem mandadas, lá consegui manter o inimigo que me queria apanhar a uma distância considerável de segurança. Eles certamente não estariam também muito interessados em apanhar-me até porque havia uma certa cumplicidade entre nós (como eu gostava de ir comer com eles aquelas belas funjadas).
 Como começava a ficar cansado de tanta fugida, refugiei-me muito sorrateiramente numa casa próxima da minha onde vivia a minha tia Ana, esposa do tio Tomás (irmão do meu pai). A minha tia apercebeu-se da minha entrada, fechou a porta e aguardou que a minha mãe me fosse buscar.
Fui agarrado, levei uma tareia (embora continuasse doente) e por uma orelha fui levado até à escola. Quando chegámos à rua de cima, de onde se via a escola, a D. Lucília estava à porta a apreciar o espectáculo. Eu mal a vi …..MILAGRE, passou-me a doença toda. Libertei-me do “carinho” da minha mãe e muito direitinho, como todos os meninos bem comportados, entrei para a sala. A D. Lucília não perguntou nada e eu também nada disse. Fiquei aborrecido por não ter visto as corridas de automóveis em Luanda e acima de tudo por não terem acreditado na minha doença súbita.
A vida já nessa altura era muito injusta para algumas crianças, onde eu me incluía. Tenho a impressão que Os Direitos das Crianças não tinham ainda chegado ao Quitexe.
 
António Guerra
publicado por Quimbanze às 09:03

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